Acidez De Tumores Pode Combater Resistência À Quimioterapia

A Influência Do pH Na Eficácia Do Tratamento
Uma equipa de cientistas do BioISI, pertencente ao Instituto de Biossistemas e Ciências Integrativas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, realizou um estudo inovador sobre a relação entre a acidez de tumores sólidos e a resistência à quimioterapia. A investigação revelou que o ambiente que rodeia as células cancerígenas em certos tipos de cancro torna-se mais ácido à medida que a doença progride. Esta alteração química no microambiente tumoral desempenha um papel crucial, pois pode modificar a forma como determinados medicamentos se comportam, dificultando a sua penetração nas células alvo e reduzindo a eficácia global do tratamento.
Os dados indicam que esta mudança ambiental não ocorre em todas as variantes de cancro, nem todos os fármacos reagem da mesma maneira a estas condições. No entanto, a descoberta é considerada um passo decisivo para compreender e superar a resistência a terapias oncológicas. A análise focou-se na diferença de pH entre o sangue e o tecido tumoral, evidenciando como pequenas variações químicas podem ter impactos profundos na entrega de medicamentos, alterando a dinâmica de absorção celular.
O Impacto Da Acidez Na Penetração De Fármacos
Para quantificar este fenómeno, os investigadores utilizaram modelos computacionais que compararam rigorosamente os níveis de acidez. Enquanto o pH do sangue humano ronda normalmente os 7,4, o ambiente em torno de alguns tumores sólidos mais agressivos pode aproximar-se do valor 6,0. Embora esta diferença possa parecer pequena a nível químico, as simulações demonstraram que ela é suficiente para tornar a entrada de alguns dos medicamentos estudados quase dez vezes mais difícil nas células cancerígenas.
Este mecanismo cria um cenário problemático para a medicina oncológica: o medicamento pode ter maior facilidade em entrar em células saudáveis do que nas células do tumor que deveria combater. De acordo com o investigador Miguel Machuqueiro, professor do Departamento de Química e Bioquímica, é surpreendente que uma alteração aparentemente mínima nas condições químicas possa criar tamanha barreira. Isto sugere que as células tumorais conseguem reduzir a eficácia de tratamentos sem a necessidade de desenvolverem novos mecanismos genéticos de resistência, bastando para isso tirar proveito da acidez do ambiente onde estão inseridas.
Se este mecanismo for confirmado experimentalmente, poderá ajudar a explicar vários dos maiores desafios da quimioterapia atual. Entre eles destacam-se a necessidade de administrar doses mais elevadas de fármacos para tentar compensar a baixa absorção, o aumento consequente dos efeitos secundários nos pacientes e a perda progressiva de eficácia de certos medicamentos à medida que o tumor avança e se torna mais ácido, tornando a progressão da doença mais difícil de travar.
Estratégias Para Reverter A Resistência
A equipa de especialistas não se limitou a identificar o problema, mas está agora a explorar formas de transformar esta característica adversa numa vantagem terapêutica. O objetivo é utilizar o próprio mecanismo de defesa das células tumorais contra elas mesmas. A estratégia consiste em alterar o comportamento dos fármacos para que estes consigam atuar de forma mais eficiente precisamente em ambientes com maior acidez, revertendo a barreira química em porta de entrada.
Atualmente, a investigação encontra-se numa fase inicial, com a equipa a desenvolver e testar provas de conceito através de modelos computacionais. O intuito é perceber se é possível aproveitar a acidez do microambiente tumoral para direcionar o tratamento de forma mais precisa e eficaz, minimizando a toxicidade em tecidos saudáveis.
Para avançar com a investigação e validar os resultados computacionais através de testes experimentais, a equipa já estabeleceu parcerias científicas e procura assegurar o financiamento necessário para realizar as fases seguintes de testes. A confirmação destes resultados poderá abrir caminho para a criação de novas gerações de medicamentos que não sejam bloqueados pela acidez tumoral, permitindo tratamentos menos agressivos para o organismo e significativamente mais letais para as células cancerígenas.